Os mitos
A quaresma, para o brasileiro e especialmente para o mineiro, foi sempre uma época de mitos e fantásticos personagens. O mais conhecido é a mula sem cabeça.
Segundo as lendas, a mula sem cabeça é uma mulher que devora cadáveres nos cemitérios ou se alimenta de sangue humano. Nas noites de sexta-feira da quaresma e durante toda a Semana Santa, a mula sem cabeça fica solta, podendo correr pelos campos e por cima dos montes e, às vezes, até mesmo dentro das cidades. E que ninguém veja a mula, pois se ver e ficar olhando, vira tantã.
Perna fina
O perna fina é uma crença da região norte de Minas. É alto, magro, careca, de pernas longas e finas e que amedronta os viajantes pelas estradas. Quem viaja na Sexta-Feira Santa sempre avista o perna fina. Anda descalço e traja um velho terno branco, mirrado e encolhido, com as calças que vão pouco baixo dos joelhos. Costuma parar nas estradas, com os braços levantados e as pernas finas abertas, formando uma cruz com o corpo. O perna fina é o "sombração" de uma pessoa que morreu, devendo cumprir juramentos que não foram cumpridos em vida. Por cem anos, o fantasma tem de "penar pela terra", antes de ser julgado de novo por Deus.
O lenhador fantasma
Dizem os crentes que é a alma penada de um lenhador que trabalhou numa Sexta-Feira da Paixão. Por isso, é obrigado por Deus a trabalhar todas as Semanas Santas, durante muitos anos, sem poder dar descanso à sua alma.
Corpo seco
Vira corpo seco quem foi malvado em vida e seviciou a própria mãe. Ao morrer, a terra não o recebe, os abutres não o comem, os vermes não o destroem, e "um dia, mirrado, defecado, com a pele engelhada sobre os ossos, se levanta da tumba, vagando e assombrando os viventes nas caladas da noite, principalmente em noites de Sexta-Feira Santa e da quaresma".
O lobisomem
Apesar de ser conhecido também em outras partes do mundo, o lobisomem brasileiro é diferente um pouco dos de outra nacionalidade. No Brasil, o lobisomem é um homem pálido, macilento, de aspecto doentio e que por ser filho de incesto ou por ter nascido depois de uma série de sete filhas, é condenado pelo destino a virar lobo, cachorro, bezerro ou porco, em dias e horas determinadas (geralmente às terças e sextas-feiras, de meia-noite às duas horas da madrugada e principalmente na Semana Santa e quaresma). No começo de sua vida, contudo,os predestinados não se tornam lobisomem. Só depois que encontram um lugar onde se espojou um animal. Daí por diante, todas as terças e sextas-feiras, de meia-noite às duas horas da madrugada, têm que fazer suas corridas: visitar sete cemitérios, sete outeiros, sete encruzilhadas, sete igrejas, para voltar a ter forma humana.
A missa negra
É rezada na noite de Sexta-Feira Santa por feiticeiros. Qualquer coisa que se pedisse naquela missa era conseguida de qualquer forma. Só que em vez de Cristo, o invocado na missa negra é o diabo que está mandando na terra, depois que Cristo morreu. Na missa negra, o mal desejado ao próximo era conseguido. Até a1928, ainda se conhecem histórias de missas negras de Sexta-Feira Santa no Brasil, entre feiticeiros. Depois acabou.
A procissão dos mortos
Na noite de Sexta-Feira Santa, muita gente chegou a ver, segundo a tradição, a fantástica procissão dos mortos que saía dos cemitérios, todos vestidos de branco, saudando o aparecimento do Cristo entre eles, tal como aconteceu depois que Jesus morreu no Monte Calvário e que centenas de mortos ressuscitaram. Dizem que só vê a procissão dos mortos quem sai à noite de Sexta-Feira Santa para fazer farra.
